Quando acordei, fui incapaz de sentir qualquer consequência, qualquer sinal de incômodo, iminência, ou aura, de recaída emocional. Dirigir demais deixa a pessoa anestesiada contra a realidade, o existir. E brincar de ser filho dos meus pais novamente me pareceu algo tão natural, apesar do constante estado de mau humor, das discussões sem fundamento, fui feliz, naquele momento quase único, agora eu vejo, fui feliz, sim.
Vai ver estranhei o anoitecer passar despercebido, ou, quem sabe, preenchi-me de realidade muito rapidamente, quando resolvi sentar e levar a vida adiante. Passei muito tempo tentando aprender a lidar com a perda daquilo que um dia já se teve. Hoje, trabalho com o incômodo de perder algo que nunca tive, algo que não está lá e me engana, me convida a viver uma solidão que não me pertence. Mas a que posso dizer que pertenço, de qualquer forma? Agora, talvez, o que me defina seja exatamente isso. Isso o quê?